A crise americana de 2008 foi desencadeada pelo estouro da bolha imobiliária, fruto da concessão desenfreada, pelo sistema financeiro, de empréstimos a pessoas sem capacidade de pagamento — porém com taxas de juros normais e alto risco, como forma de aquecimento do mercado, conhecidos como subprime.
Devido à ganância irracional dos banqueiros e à esperteza dos mutuários, o tempo se incumbiu de atribuir aos imóveis valores estratosféricos, contribuindo para o sucesso do subprime.
No Brasil atual, o cenário não é muito diferente. Mudanças legislativas feitas sob medida para atender aos interesses dos investidores criaram mecanismos blindados para impedir o prejuízo do sistema financeiro. Estabeleceu-se, assim, a facilidade da execução extrajudicial da dívida e consolidaram-se os fundos imobiliários para a captação de recursos destinados a novos empreendimentos.
Vendia-se a narrativa de que o motor desse mercado era o número expressivo de cidadãos em busca da casa própria. Ledo engano!
Antônio Carlos CantoniNa realidade, os maiores investidores em novos imóveis nos últimos anos foram os empreendedores do agronegócio, impulsionados pelos excelentes resultados de suas safras até 2022 — época em que a saca de soja passava dos R$ 190,00.
Atualmente, mesmo com a alta dos insumos, a saca é comercializada na casa dos R$ 130,00: uma redução expressiva de mais de 30%. Em contrapartida, o custo da construção civil sofreu um aumento de percentual idêntico.
Para piorar o cenário do comprador comum, ele é obrigado a dar uma entrada de, no mínimo, 20%, além de arcar com despesas de regularização documental e impostos — como o ITBI e o registro — que podem abocanhar até 10% do valor total do imóvel.
Diante disso, a conclusão é inevitável: as construtoras e os investidores enfrentarão enormes dificuldades para desovar seus novos estoques. Na outra ponta, os mutuários inadimplentes sofrerão prejuízos avassaladores devido à retomada extrajudicial rápida de seus bens e a avaliações abaixo do preço de mercado. Esses imóveis retomados competirão diretamente com os novos lançamentos.
A bolha imobiliária brasileira, que hoje já está fragilizada e "furada", corre o risco iminente de explodir nos próximos meses.
Antônio Carlos Cantoni