Ao completar cinquenta anos de advocacia e quarenta como rotariano, observo o Brasil de 2026 e sinto o mesmo arrepio ético que deve ter percorrido a espinha de Paul Harris e seus três amigos na Chicago de 1905. Naquela metrópole em franca expansão, a esperteza havia devorado a confiança, e o isolamento moral era o preço que o homem íntegro pagava para não se corromper.
Era um ambiente em que a ética individual se tornara um fardo solitário, quase uma excentricidade. Foi precisamente desse incômodo compartilhado que nasceu o Rotary International: não como um clube de negócios, mas como uma resposta civilizatória à falência da sociedade da época que desprezava o vínculo humano.
Hoje, em solo brasileiro, não sofremos apenas uma crise moral. Padecemos de uma patologia muito mais silenciosa e letal: a ausência de alteridade. Perdemos a capacidade elementar de enxergar o outro como companheiro ou semelhante.
Negócios se transformaram em emboscadas. O Direito, em muitas mãos, deixou de ser instrumento de justiça para se converter em arma de conveniência pessoal, acessível sobretudo às elites privilegiadas.
É nesse lodo de desconfiança, onde o ganhar a qualquer custo se tornou a regra de ouro não escrita, que a Prova Quádrupla deixa de ser um lema de clube para se tornar a última fronteira da nossa sobrevivência civilizatória.
Mas não nos enganemos: a corrupção do caráter não se manifesta apenas na nota fiscal superfaturada, na licitação direcionada ou nos contratos de gaveta. No Brasil de 2026, assistimos à ascensão de um mal ainda mais insidioso, que penetra até mesmo nos redutos que deveriam ser templos da ética: os clubes de serviço, as cortes de justiça, as empresas, as famílias. Esse mal tem nome: corporativismo, deslealdade e vaidade.
Quando a vaidade protegida pelo corporativismo entra pela porta de uma instituição, a ética sai pela janela.
Antônio Carlos CantoniO aparecer se torna mais importante do que o fazer. A desonestidade intelectual, prima-irmã da vaidade, faz com que o indivíduo se sinta superior às regras que ele mesmo jurou defender.
É essa vaidade que impede o empresário de admitir o erro, que leva o servidor público a priorizar a autopromoção em detrimento do bem comum, que destrói o altruísmo e o substitui pela fumaça passageira de um ego inflado. Instituições corrompidas pela vaidade não colapsam de uma vez: elas se esvaziam por dentro, mantendo a fachada enquanto abandonam o propósito.
Diante desse cenário, onde a conveniência sistematicamente desfigura as instituições, não basta lamentar nem demonstrar indignação performática. O Direito e o serviço humanitário exigem ação concreta — que cada profissional, cada líder comunitário, cada cidadão comum decida conscientemente de que lado dessa linha quer estar.
A mudança ética não se decreta: ela se constrói em uma decisão individual repetida diariamente, na escolha de ser honesto quando a desonestidade seria mais lucrativa, de ser leal quando a traição seria mais cômoda e proveitosa, de enxergar o outro quando ignorá-lo seria mais fácil.
Se a Chicago de 1905 precisou de um choque de amizade para evoluir, o Brasil de 2026 precisa, urgentemente, de um choque de integridade: de alteridade, de moral e de ética. Não de discursos. Não de campanhas. De exemplos vividos. De profissionais que honrem seus compromissos. De líderes que sirvam antes de ocupar cargos importantes. De instituições que existam para o outro, não para si mesmas em proveito próprio.
Cinquenta anos de advocacia me ensinaram que o Direito sem ética é apenas força e injustiça. Quarenta anos de Rotary me ensinaram que o serviço sem alteridade é apenas vaidade. O Brasil que queremos é aquele onde o ego entra em equilíbrio com o verdadeiro amor em busca da harmonia social.
Antônio Carlos Cantoni